Curta Metragem – UFSCar, São Carlos

Teremos Pitanga Amanhã?

Pitangueira é um trabalho instigante, sério, poético. Propomos algumas interrogações, de acordo com os signos que predominantemente emergem ao longo da projeção: onde está a pitangueira, ela que dá frutos de luz, ela que dá a ver? Será que teremos pitanga amanhã? Ou, de outro modo, será que frutificaremos, vamos gerar sentido, produzir sentido? Como podemos fazer para sermos sensíveis aos signos da pitangueira? Cinematograficamente, tais questões são, em geral, bem conduzidas. Há uma espécie de ritornelo, de atrator estranho, em função do qual o filme vai girando, vai avançando, que diz respeito, sobretudo, a ver (de um lado) e a ouvir (de outro), em se considerando uma certa idéia de produção de sentido: ver a presença ausente da pitangueira, ouvir os latidos de Otto, ele, aliás, que vai virar música, segundo o que afirma Cássio. Tudo para chegarmos ao instante ímpar em que José, justamente o mais catatônico de todos, “precisa” sair – ainda que somente por alguma fração de tempo – de sua letargia, pois notou algo que os outros não perceberam: seu amigo, o cão Otto, estava machucado. Era necessário cuidar dele.

Mas tudo se passa, ao final das contas, como se o lapso de lucidez ou de consciência alcançado por José tivesse sido mesmo já o suficiente e somente ao ponto de chegar a fazer o curativo no animal, fazê-lo sarar. Como se ele enunciasse: um pouco de sanidade, tudo bem, mas apenas o bastante, até porque esta suposta claridade do outro lado do espelho não deixa também de guardar uma estranheza que lhe é própria. Logo após, José acaba por retornar à noite de sua catalepsia. É provável que retome uma certa comunicação sim, mas apenas com Ottos e pitangueiras, e de um modo muito particular. Terá ele provado da comunicação entre os homens e “preferido” voltar a ver/ouvir as coisas que apenas ele e poucos outros viam/ouviam? Ainda que nada disso possa ser exatamente voluntário – pois, sabemos, é uma  dolorosa problemática clínica que está em jogo –, seria esta uma leitura possível? Em outras palavras, poderíamos indagar: qual é o nível mais forte de comunicação a nortear o filme? Diríamos talvez que José “escolhe” (embora, mais uma vez, não seja, tão simplesmente, uma questão de escolha) se animalizar (estar perto de Otto) a se humanizar (estar perto dos demais)? Para falarmos deleuzeanamente, um devir-cão, ao invés de um devir-homem? Temos a impressão de que a comunicação principal a iluminar o percurso do filme é entre José e Otto, ou mesmo entre Cássio e Otto, por exemplo. Trata-se possivelmente de uma silenciosa e discreta comunicação que se passa, uma espécie de conversação oculta, para além da tagarelice humana e convencional à qual estamos tão habituados. E não estará aí, ao fim e ao cabo, um certo – embora excêntrico – processo de comunicação?

Em suma, Pitangueira é um tecido audiovisual que discorre precisamente sobre audições e visões numa clínica psiquiátrica. É um filme sobre a lucidez – ou sobre sua ausência, seus limites, naquilo que diz respeito à produção de sentido. A equipe de realização está finalizando a graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos. Marquemos isso. Claro, poderíamos enumerar pequenos problemas técnicos aqui ou acolá – mas eles não chegam a comprometer a efetuação da idéia que levaram a termo. Ora, o que especialmente pedimos aos realizadores do futuro é que, desde cedo, nos ajudem a respirar um pouco mais e melhor, legando-nos, quem sabe, pequenos bolsões, discretos mas intensos, de digna resistência poética cinematográfica. A equipe avança nesta boa direção.

 

Alessandro Carvalho Sales

(Doutor em Filosofia pela UFSCar e pós-doutorando em Imagem e Som pela mesma universidade, com apoio da FAPESP)

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Texto redigido pelo Prof. Dr. Alessandro em cima de suas intrepretações, críticas e pensamentos discutidos na banca do TCC Pitangueira.

Agradecemos enormemente o texto e a atenção.

 

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